Colonia “Nuova Venezia” In Santa Catharina Brasile

17 nov

“(…) nunca uma sociedade se revela tão bem

como quando projeta para trás de si

a sua própria imagem.”

(Charles-Oliver Carbonnel – Historiador, 1981)

Os 30 mil hectares de terra adquiridos pela empresa norte americana Angelo Fiorita & Cia., pela sua filial na cidade do Rio de Janeiro, em 1890, posteriormente administrada pela Companhia Metropolitana, para materializar a colônia Nova Veneza em 1891, tinha seu território dividido entre o limite dos municípios de Araranguá e Tubarão, no sul catarinense. Levando-se em conta que a localidade de Araranguá teve sua criação datada de 04 de maio de 1848, é de se supor que, independente do surto imigratório, as terras próximas aos rios e montanhas da futura colônia, com todos os seus atrativos naturais, habitat natural dos índios Xokleng e passagem dos tropeiros, foram ocupadas, lentamente, por brasileiros.

Na relação de imigrantes que entraram na Colônia Nova Veneza, de propriedade da empresa colonizadora Companhia Metropolita, também, citada pelo escritor Zulmar Hélio Bortolotto,[1] pode-se constatar, notadamente, na Seção Rio São Bento a presença de brasileiros, bem antes da chegada dos europeus. Varias  famílias brasileiras ou ocupantes isolados  já viviam na região onde foi instalada a Colônia Nova Veneza, num convívio com os índios Xokleng, que ocupavam esse território entre o mar e a Serra Geral.

Nomes dos brasileiros já instalados nas terras que comporiam a Colônia Nova Veneza estão nos livros de registro do empreendimento, devidamente catalogados pelo escritor Zulmar Hélio Bortolotto, tais como: João Cunha, casado com Luigia; Fernandes João; Henrique Antonio;[2] Manoel Lacerda José; José Machado Izaquiel e suas filhas Antônia, Maria e Candinha;[3] Luiz Faustino; Glaucir de Moura Valencio, casado com Josina e seus filhos Camilo, Otavia, Januaria, Amantino, Honorata; Maria Valencio; [4]Reginaldo Gardinho; Pereira Barbosa Agostinho, casado com Bernardinha e seus filhos Antonio, Manoel, Maria, Mariano, Indalina, Josepha, Candida, Clara, Antonia e Filomena;[5] J. Vieira Saturnino, casado com Julia e seus filhos Matteo, Valentino, Talles, João e Maria; Antonio da Silva João, casado com Claudina e seus filhos Candido, Patrocinia, Maria, Giustina, Alberto, Firmina, Saturnina e Paola; Savi Celeste; Angelo Padilha Manuel; Antonio Manuel;[6] Thomaz de Amorim; Roque de Azevedo Velho Roque; Ignacio Pacheco dos Santos; Gregorio Gonçalves Padilha e Caetano da Silva Tavares.[7] Famílias invisíveis em todo o processo de ocupação e formação de Nova Belluno – Siderópolis (SC), que ora são reconhecidas como participantes importantes da nossa história.

A maioria desses brasileiros trabalhou sob as ordens de Federico Antonio Selva, topógrafo e agrimensor responsável pela organização dos lotes e Seções e Núcleos do empreendimento, entre dezembro de 1890 e abril de 1891, e mais tarde, com uma das recompensas pelos seus préstimos, estes pioneiros de origem açoriana e negra receberam lotes no Núcleo Jordão e Seções como Rio São Bento e Rio Selva localizados nas proximidades do Costão da Serra, dando origem posteriormente às localidades de Serrinha, São Pedro, Costão e São Bento Alto. Selva comandava 4 grupos de trabalhadores, possivelmente em torno de 150 homens, o que supõe-se que muitos depois se espalharam pelas terras, voltando a Jaguaruna, Imbituba, Tubarão, Laguna, de onde provinham, ou estabelecendo-se em terras devolutas, com exceção dos mencionados e beneficiados com propriedades.

Outra etnia que foi colocada à margem da história foi a da nação aborígene Xokleng. Estes primeiros habitantes da região das proximidades da Serra Geral foram perseguidos, desde o inicio da colonização europeia no sul catarinense em 1875, até sua extinção regional. De forma precisa o historiador Mauricio da Silva Selau relata o confronto tramado pelo governo brasileiro, ao disponibilizar terras indígenas aos imigrantes, na criação de diversas colônias no sul catarinense.

(…) o extermínio do grupo Xokleng no Sul Catarinense e a consequente espoliação de suas terras foi possível devido à política indigenista do século XIX que previa “guerra” aos botocudos, entre os quais estão incluídos os Xokleng. Esta “guerra” serviu de terreno para a construção de representações sobre este grupo indígena que será apropriada pelos imigrantes e externado por meio do termo “bugre”, que classificava os indígenas como incapazes de convívio com a sociedade da qual os imigrantes faziam parte. Surge, portanto, as justificativas para as ações que foram desenvolvidas, visando a garantia de segurança nas colônias, ou seja, o trabalho dos bugreiros, que consistia no extermínio dos Xokleng, com aval das autoridades constituídas.[8]

Também buscamos na dedicatória do livro – Os Imigrantes no confronto com os donos da terra, os Índios – de 1991, do Monsenhor Quinto Davide Baldessar, o resultado do relacionamento entre o imigrante e o índio que vivia na região:

Dedico o presente opúsculo aos amigos da verdade no que se refere à convivência e aos atritos criados entre os Imigrantes e os legítimos Donos da Terra, os Botocudos, que tanto foram injustiçados pelas estruturas vigentes quanto pelos próprios ádvenas que com eles tiveram que se defrontar por todos os modos e que deu como resultado a derrota do mais fraco e o fim da presença do primitivo proprietário das terras disputadas, o Índio.[9]

Visualizar a importância de todas as etnias que contribuíram com a formação da nossa cidade é conhecer a nossa historia, notadamente os primeiros ocupantes das terras os índios Xokleng e os brasileiros aqui vivendo antes dos imigrantes europeus. No período eufórico da extração do carvão mineral, o município contou com a mão de obra importante dos açorianos, alemães, negros e polacos e outras etnias.

Na história tradicional é comum a afirmativa de que os imigrantes italianos foram os pioneiros na ocupação da Colônia Nova Veneza. É uma visão errônea e ultrapassada a afirmação daqueles que se aventuram a escrever a história regional de um empreendimento colonial particular que floresceu somente com o trabalho dos colonos imigrantes.

Nilso Dassi – Licenciado e Bacharel em História pela Unesc e neto de italianos.

Com a colaboração importante do escritor Ronaldo David.

Primavera 2015.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS CONSULTADAS:

BALDESSAR, Quinto Davide., Monsenhor. Os imigrantes no confronto com os donos da terram os índios / Nova Veneza: Ed. do Autor, 1991. 69p.

BORTOLOTTO, Zulmar Hélio. História de Nova Veneza / Zulmar Hélio Bortolotto. – Florianópolis: 2. Ed. Insular, 2012. 416p.

SELAU, Maurício da Silva. A ocupação do território Xokleng pelos imigrantes italianos no sul catarinense (1875 – 1925): resistência e extermínio / Maurício da Silva Selau. – Florianópolis: Bernúncia, 2010. 192p.

[1] BORTOLOTTO, p. 238.

[2] Idem, p. 400.

[3] Idem, p. 402.

[4] Idem, p. 403.

[5] Idem, p. 404 e 405.

[6] Idem, p. 406.

[7] Idem, p. 407.

[8] SELAU, p. 19.

[9] BALDESSAR, p. 69.

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